Álcool em gel caseiro é eficaz e seguro contra coronavírus?

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A pandemia de coronavírus tem causado muito temor e as pessoas estão buscando desesperadamente formas de se proteger. Por esse motivo, a procura por álcool em gel aumentou assustadoramente, o que causou o esgotamento do produto em vários estabelecimentos comerciais e tem levado a população a uma busca descontrolada por alternativas caseiras. Mas o álcool em gel caseiro é eficaz contra o coronavírus?

A maioria das receitas não é eficaz, tampouco segura! Para melhor compreensão, vamos entender como o álcool em gel é fabricado.

Ele é composto, essencialmente, por álcool líquido e espessante, que é uma substância responsável pela consistência do álcool em gel. Algumas formulações também trazem substâncias hidratantes e fragrâncias. As receitas caseiras têm problemas tanto em relação ao álcool quanto ao espessante. Vamos entender o porquê!

Para o álcool ter efeito antisséptico, ou seja, ter a capacidade de matar micro-organismos, como vírus, sua concentração deve ser entre 60% e 80% (volume de álcool em relação ao volume total). Existem duas graduações para álcoois que podemos observar em seus rótulos: °GL (porcentagem de álcool em volume) e °INPM (porcentagem de álcool em massa). O álcool líquido comum, disponível em mercados, é o item mais encontrado nas receitas caseiras e tem 54 °GL (ou 46 °INPM), concentração que não é eficaz contra o coronavírus.

Receitas que utilizam álcoois líquidos em concentrações maiores que 54 °GL são perigosas, tanto que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu, desde 2013, a comercialização desse tipo de produto, devido aos riscos à saúde pública. Mesmo que alguém tenha acesso a esse tipo de álcool, não é recomendado utilizá-lo em receitas, pois o risco de acidentes, como incêndios e queimaduras, é alto. Além disso, a utilização de um álcool em gel com a concentração acima de 80% pode causar ressecamento da pele e, consequentemente, fissuras que são uma porta de entrada para micro-organismos.

Álcoois são voláteis, assim, se não for utilizada uma substância para conter sua evaporação, não há como garantir a quantidade de álcool no gel por um período de tempo (álcool em gel comercial geralmente tem dois anos de validade). O espessante industrial, que não é acessível para a população, garante a estabilidade e a concentração adequada do produto. As alternativas utilizadas como espessantes nas receitas caseiras (gelatinas, gel de cabelo etc.) não têm a capacidade de manter a concentração adequada do álcool, além de poderem causar irritações na pele. É importante salientar também que, dependendo do espessante, ele pode até aumentar a proliferação dos microorganismos.

A receita caseira mais comum, divulgada atualmente nas redes sociais, utiliza álcool comum (54 °GL), que já sabemos não ser eficaz contra o coronavírus, e gelatina incolor como espessante. Além dos pontos levantados anteriormente sobre os espessantes, não é fácil atingir a consistência de gel com a gelatina. Para entender o motivo, vamos lembrar para qual finalidade utilizamos gelatina incolor: nas receitas de doces. Para atingir o ponto desejado, a sobremesa precisa ser levada à geladeira e depois, quando fica muito tempo à temperatura ambiente, ela começa a derreter, não é mesmo? Dessa forma, além de não ser fácil conseguir a consistência de gel, ela é sensível a variações de temperatura.

Como conclusão: receitas caseiras não são eficazes e seguras! O ideal mesmo é utilizar o álcool em gel industrializado certificado por órgão de fiscalização. Nas indústrias especializadas existe rigoroso controle químico e microbiológico, que garante a qualidade do produto, o que não acontece nas nossas casas!

Vale relembrar que o álcool em gel é um importante aliado na prevenção do coronavírus, mas no dia a dia de nossas casas o melhor mesmo é usar água e sabão. Dessa forma, vamos deixar o álcool em gel para momentos em que não podemos lavar as mãos (no transporte público, por exemplo). Também é importante salientar que o álcool em gel deve ser utilizado de forma consciente. Não há necessidade de comprar todo o estoque da farmácia só para nossa família. Vamos comprar só o necessário e deixar que todos possam ter acesso também. É momento de pensar no coletivo. Se todos estiverem protegidos, o vírus não se propagará tão rapidamente e, assim, passaremos por esse momento tão delicado da melhor forma possível.

Amanda Danuello Pivatto e Marcos Pivatto são químicos, professores e pesquisadores no Instituto de Química da UFU.


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