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No Brasil, o câncer que mais acomete as mulheres é o de mama, depois do de pele não melanoma. No ano de 2018, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou o surgimento de 59.700 novos casos da doença. Apesar de existir uma maior propensão ao desenvolvimento entre o público feminino com mais de 50 anos, a oncologista do Hospital São Rafael (HSR), Lívia Andrade, reforça que a patologia também pode surgir em jovens com menos de 35 anos de idade. “A incidência é rara, mas infelizmente os índices vêm aumentando até nessa população. Para se ter uma ideia, em décadas passadas as estatísticas correspondiam a 2% e, agora, já estão em 5%”, detalha.

Para a especialista, o grande problema está no diagnóstico tardio da doença e, por isso, o autoexame é um dos aliados na prevenção. “A paciente pode realizar o exame em casa e, ao identificar nódulos, secreção, mudança de formato, retrações ou alterações em pele, deve recorrer ao médico. A avaliação é simples: com uma das mãos posicionada atrás da cabeça, as mulheres devem deslizar o dedo fazendo movimentos suaves e circulares por toda a mama. É importante repetir o processo uma vez por mês, uma semana após o término da menstruação”, explica Lívia Andrade.

Apesar de ajudar a identificar possíveis alterações, o método não deve ser usado como única forma de detecção da doença. Outros exames realizados por um médico especialista, como ultrassonografia e a mamografia depois dos 40 anos, além de avaliação clínica e exames físicos, também ajudam a identificar o tumor e a preveni-lo. Quem tem histórico familiar da doença deve ter o sinal de alerta redobrado em relação aos cuidados e um acompanhamento diferenciado.

Prevenção

Segundo a oncologista, 80% dos nódulos identificados nas mamas são benignos. Para 20% restantes, mesmo sendo malignos, há chances de cura, advindo daí a importância do diagnóstico precoce. “Quanto mais cedo for identificada a doença, melhores serão as respostas ao tratamento e maiores as chances de cura. O tratamento, além da cirurgia, poderá incluir quimioterapia, radioterapia e/ou hormonioterapia. A indicação de cada um desses tratamentos dependerá do tamanho e das características do tumor em questão”

Para Lívia Andrade, “a cirurgia, na maioria das vezes, é conservadora com a preservação da mama, porém, em casos mais avançados, quando o tumor é identificado de forma mais tardia, muitas vezes se faz necessário a retirada total da mama. As cirurgias plásticas reconstrutoras estão cada vez mais avançadas, com excelentes resultados estéticos”.

O mercado de trabalho depois do câncer de mama

O câncer ainda é visto, de maneira geral, como sinônimo de grande adversidade para muitas pessoas. Com o avanço tecnológico dos últimos anos, porém, as chances de um diagnóstico precoce e as taxas de sobrevida aumentaram consideravelmente. Isso significa que muitos ex-pacientes podem seguir a vida normalmente, o que inclui voltar ao mercado de trabalho. A questão é como o mercado está preparado para receber tais profissionais no retorno da licença ao fim do período de tratamento.

Na minha experiência eu sentia que venceria a batalha contra o câncer, mas um dos momentos mais difíceis foi o retorno ao trabalho. Fui diagnosticada com um tumor benigno na mama aos 39 anos. Logo em seguida, sempre realizando o autoexame, percebi outro nódulo, que a princípio foi dado também como benigno. Mas suas características eram diferentes do anterior, o que me fez buscar uma segunda opinião médica, quando então foi detectado um tumor maligno: um câncer de mama.

Como o tratamento era muito extenuante, precisei me afastar do trabalho. Quando terminei a terapia, apta a retornar às minhas atividades e cheia de planos, senti que a empresa onde trabalhava não soube lidar com minha volta. É difícil para os dois lados, pois o mundo não para durante nosso tratamento, mas não houve um cuidado com relação à minha reinserção. O olhar de compaixão e ao mesmo tempo de dúvida no ambiente é algo que nos fere. Muitos duvidavam da minha capacidade de tocar projetos mais longos, apesar de eu já estar saudável. Com o tempo, fui reconquistando meu espaço, até que decidi procurar novos horizontes profissionais.

Isso demonstra, de forma não generalizada, que as empresas, mesmo fazendo campanhas de prevenção no Outubro Rosa, ainda não se sensibilizaram com todas as questões que envolvem o câncer de mama, e uma delas é como lidar com o retorno das mulheres que tiveram a doença aos seus postos de trabalho. Assim, as reações iniciais são quase sempre de pena ou de dúvida em relação à capacidade daquela colaboradora, que precisará provar seu valor mais uma vez para a organização. Muitas não conseguem se reposicionar no mercado de trabalho e partem para atividades alternativas, ou começam a duvidar da própria capacidade, abandonam as carreiras e passam a apresentar sintomas de depressão.

No Brasil, a taxa de retorno ao trabalho após dois anos do diagnóstico de câncer de mama é de 60%, segundo pesquisa do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). O levantamento também revela que mulheres com remuneração acima de dois salários mínimos ou que passaram por cirurgia que preserva a maior parte da mama tiveram mais chance de se recolocar no mercado de trabalho. Outro fator que auxilia essas funcionárias é a flexibilidade no ambiente de trabalho, mas apenas 29% conseguem esse benefício.

Esses dados indicam que as campanhas do Outubro Rosa devem ir além da prevenção ao câncer de mama e do autoexame. Deve ser discutida também sob a ótica da recolocação dessas mulheres no mercado, de que maneira isso pode ser feito, formas adequadas de tratamento, bem como políticas para facilitar a reinserção dessas profissionais.

Mitos e verdades sobre o câncer de mama

O cenário do câncer de mama no Brasil e no mundo traz números expressivos. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), no país, quase 60 mil mulheres são atingidas pela doença por ano. A enfermidade está entre as mais comuns neste grupo, ficando atrás apenas do câncer de pele não melanoma, além de ser a número um no ranking de causa de morte por câncer no mundo.

Diante desta dimensão, o problema ainda gera muitas dúvidas. O mastologista do Hospital Edmundo Vasconcelos, Yong Kyun Joo, explica o que é mito e verdade sobre o assunto:

1. Realizar o autoexame todo mês e não sentir nada exclui a necessidade de fazer a mamografia?

Mito: Apesar de importante, o autoexame feito como única forma de prevenção não é um método eficaz para detectar o câncer de mama. Isso porque o indivíduo só consegue apalpar o nódulo cancerígeno quando ele está em estágios avançados. Portanto, se você tem 40 anos ou mais, deve fazer mamografia todos os anos.

2. Apenas quem tem casos na família pode ter câncer de mama?

Mito: Devemos sempre valorizar os antecedentes familiares, principalmente em parentes de primeiro grau. Porém, cerca de 90% das pacientes com diagnóstico de câncer de mama não tem nenhum histórico familiar, ou seja, a maioria não tem um componente hereditário.

3. Ter filhos diminui a chance de ter câncer de mama?

Verdade: A gestação é um dos principais fatores protetores para câncer de mama, principalmente antes dos 30 anos. Isso porque o tecido mamário só atinge a sua diferenciação completa com a gestação, tornando-se, desta forma, menos suscetível à transformação maligna.

4. O ultrassom de mamas é um bom substituto para a mamografia no rastreamento de câncer mamário?

Mito: Embora o ultrassom seja muito mais confortável, ele não é eficaz para rastreamento como método isolado. Apesar de amplamente utilizado, o seu principal papel é complementar à mamografia, que é ainda o principal exame para a detecção do câncer de mama.

5. Homens também podem ter câncer de mama?

Verdade: É muito mais raro, com uma proporção de 1/100, mas homens também podem ter câncer de mama. Neles, a doença aparece mais tardiamente, geralmente na sexta ou sétima década de vida.

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